Estratégia do silêncio, irritação com BAP e alvos gringos: os bastidores da saída e da sucessão de Jorge Jesus no Flamengo



Por diversas vezes nos últimos dias, os dirigentes do departamento de futebol do Flamengo receberam mensagens e ligações de empresários. O tema era sempre o mesmo: nomes de treinadores sendo oferecidos para o lugar de Jorge Jesus.

Alguns até diziam aos cartolas que já tinham a confirmação da saída do treinador. A resposta seguia um padrão. Em linhas gerais: "não, obrigado, não temos esta informação e não vamos falar com ninguém enquanto Jorge Jesus for nosso técnico".

Apesar das notícias envolvendo o interesse do Benfica, a diretoria do Flamengo, pelo menos até a noite de quinta-feira, confiava na permanência de Jesus. Mas o cenário mudou na manhã de sexta-feira, com as notícias vindas de Portugal e, na sequência, a confirmação pessoal do Mister ao vice-presidente de futebol, Marcos Braz, de que sairia.


Jorge Jesus no Ninho do Urubu — Foto: Marcelo Cortes/Flamengo

Braz almoçou com Jesus no condomínio onde o treinador mora, na Barra da Tijuca. Após a conversa, alinharam como seria a estratégia de comunicação, com o Flamengo se pronunciando em nota oficial, seguido por postagem do Mister. Braz seguiu para outro restaurante, onde se reuniu com assessores do clube.

Feitas as postagens, Jorge Jesus ainda encontrou tempo para pequenos agrados: distribuiu cópias autografadas de sua biografia a pessoas com as quais conviveu no Flamengo. À noite, Braz e Jesus jantaram juntos na Barra da Tijuca.


Comissão às escuras


Até a decisão de Jesus, tomada nesta sexta, o técnico não se abriu com ninguém. Nem mesmo com seus compatriotas de comissão técnica, que foram pegos de surpresa. O preparador físico Marcio Sampaio, por exemplo, havia se mudado para uma nova residência no Rio, logo após a renovação do contrato do Mister. Outro integrante da comissão comprou uma moto e uma casa em São Paulo.


Jorge Jesus e Marcio Sampaio durante treino do Flamengo — Foto: Alexandre Vidal/Flamengo



Desde que o Benfica voltou à carga, Jorge Jesus não quis se manifestar. A seus assessores, deixou claro no início que não gostaria de falar publicamente sobre o assunto. Em dado momento, chegou-se a preparar uma nota oficial para ser postada em suas redes sociais, mas, em cima da hora, o técnico vetou.


Apesar do silêncio, a postura de Jesus no cotidiano mudou perceptivelmente. Ele esteve bastante calado nas últimas semanas, mais econômico em suas interações. Questões pessoais envolvendo o Mister tornaram o clima ainda mais tenso na última semana, com burburinho e nota oficial do clube saindo em defesa do treinador.

Irritação com BAP

Em alguns momentos, porém, Jesus voltava a ser o técnico com o qual todos se acostumaram. Há cerca de duas semanas, ao ver cinco pessoas acompanhando o treino durante uma tarde no Ninho do Urubu, perguntou quem eram, incomodado com a perspectiva de assistirem aos trabalhos.

Só depois o Mister soube que eram figuras conhecidas, entre eles dois membros do Conselho de Futebol, Diogo Lemos e Dekko Roisman, sempre presentes em atividades no Ninho. Ao tomar conhecimento, pediu desculpas a todos.

Por outro lado, houve irritação com Luiz Eduardo Baptista, o BAP, vice-presidente de relações externas. Jesus não gostou nada de saber da declaração do dirigente, criticando um gol perdido por Lincoln na final do Mundial de Clubes contra o Liverpool.


Alvos gringos para a sucessão

Por contar até o fim com Jorge Jesus, a diretoria do Flamengo agora tentará agilizar o processo para achar o novo treinador. Haverá reunião já neste sábado para tentar definir um nome. A ideia é fechar em no máximo 10 dias com o sucessor do Mister.


Um nome na mesa é o do também português Marco Silva, que vinha sendo comentado no clube há alguns meses, antes mesmo de qualquer notícia de saída de Jesus. Ele foi sugerido por Giuliano Bertolucci, o mesmo empresário que ajudou na contratação e na renovação do Mister. Mas não é o único sendo analisado - Leonardo Jardim, outro compatriota de Jesus, também é estudado.



Um dos nomes na lista do departamento de scouting do clube é o de Domènec Torrent, ex-auxiliar de Pep Guardiola no Barcelona, no Bayern de Munique e no Manchester City, que comandou o New York City FC na MLS entre 2018 e 2019.


Por enquanto, porém, não houve qualquer contato ou sondagem a treinadores.


Apesar do farto cardápio de estrangeiros, o vice-presidente de futebol, Marcos Braz, não descartou a contratação de um brasileiro.


- Não tenho nenhum demérito em poder ser técnico brasileiro ou que esteja no país. Não tem nada disso. Nós nessa gestão já tivemos técnico brasileiro, português... Agora com calma a gente vai escolher o próximo técnico. Não tem preconceito com absolutamente nada. Os técnicos brasileiros são maravilhosos, grandes resultados, grandes técnicos... Mas a gente vai ter a tranquilidade para escolher o melhor caminho - disse Braz.


O elenco do Flamengo se reapresentará somente na tarde de quarta-feira, e não mais na terça, como previsto. Ainda não há uma definição sobre quem comandará as atividades - o mais cotado é Mauricio Souza, técnico do sub-20.


Além de Jesus, o clube perdeu também boa parte de sua comissão técnica. Os seis portugueses seguirão com o Mister, e o coach Evandro Motta não permanecerá. Por outro lado, o chefe do departamento médico, Marcio Tannure, rejeitou o convite de Jesus para acompanhá-lo no Benfica.


O Flamengo terá pelo menos 17 dias de preparação até o Brasileiro. A primeira rodada está prevista para o fim de semana dos dias 8 e 9 de agosto.


Com cinco títulos na bagagem, técnico volta para Portugal invicto no Maracanã e com aproveitamento superior a 80% em 57 partidas

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